Paquistão - Crónicas das Montanhas
- Sardine Ana

- 2 de fev.
- 40 min de leitura
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Factos

📌República Islâmica do Paquistão
🗺️Área: 881.913 km2
🧑🤝🧑População: 241.499.431 (estimativa de 2023)
🚩Capital: Islamabad
📖Língua Oficial: Urdu e Inglês (outras línguas reconhecidas: mais de 77 como por exemplo Punjabi e Pashto)
🏔️Ponto mais Elevado: 8611 m (K2)
🪙Moeda: Pakistani Rupee

Sardinha no Paquistão
Tempo: 20 dias
Locais Visitados: Lahore, Islamabad, Naran, Hunza, Naltar, Vale Phander, Booni, Chitral, Vale de Kalash e Peshawar
Transportes: Carrinha, Tuk-Tuk e 4x4
Mês: Setembro | Clima:☀️ | Temperatura: entre os 10ºC e os 39ºC
Tal como na Mauritânia, não fui sozinha nem organizei a viagem sozinha. A viagem foi organizada pela incrível empresa portuguesa de viagens aventura: 100rota e pela empresa Paquistanesa Positive Pakistan Tours & Travels 💡Espreita o site deles se também quiseres embarcar para uma aventura!
Montanhas de Esperança
Dia 1 - 14 de Setembro: Lisboa (Portugal) - Doha (Qatar)
Quando decidi sair da minha bolha, por uma mochila às costas e por um pé fora da minha zona de conforto (vá...na altura foi só meio pé) longe pensava eu que o Paquistão estaria um dia no meu destino. No entanto, as voltas da vida e de irmos conhecendo pessoas, que nos fazem crescer e confiar que vai dar certo, aqui me trouxeram. E hoje, parto para o Paquistão.
Foram meses de vozes a dizerem-me: "vais em trabalho?", "obrigaram-te?", "férias no Paquistão?" - Respostas: "não", "não" e "porque não?"
Embarquei em Lisboa num Domingo e cheguei apenas na Terça. Também nesse dia da partida alguém de outra viagem me perguntou quando tinha sido a última vez que chorei. Foi hoje. Pela sorte que tenho na vida. A sorte dá trabalho é verdade. Trabalho e empenho, mas maioritariamente é sorte na roleta dos nascimentos - no sítio que te sai na rifa, nas pessoas que te calham. Que sorte de poder ir sozinha quando quero e porque quero e para onde quero. Por poder viver sonhos quando tantas pessoas nem sequer conseguem sobreviver quanto mais sonhar. Chorei hoje porque sou mesmo muito grata pelo que tenho e pelo que sou. Acredito que o mundo pode ser um sítio muito bonito quando podemos sonhar e quando nos permitimos ir e sentir. De coração aberto e de mente aberta.
Dia 2 - 15 de Setembro: Doha (Qatar) - Lahore (Paquistão)
Uma portuguesa, uma polaca, uma americana e uma indonésia sentam-se num café no velho Bazaar de Doha (Qatar). Uma a viajar de férias, uma a trabalhar, uma reformada e uma em viagem para ir festejar a graduação da irmã e a trazer de volta a casa.
Uma conversa recai novamente na sorte, no trabalho e no empenho. Do outro lado do mundo e pela primeira vez a ir à Europa, a Day (vamos chamar-lhe assim) ia com o marido e a mãe festejar a graduação da irmã no Reino Unido - a primeira da família a graduar-se. Todo o sonho e empenho de uma família, todas as fichas ali apostadas. Não sabia o curso, mas sabia que a irmã tinha conseguido e sabia que tinham juntado o que podiam para conseguir celebrar com ela e trazê-la de volta a casa com eles. A irmã e a bagagem cheia de sonhos. Sabem as pessoas que parecem que conhecemos à uma eternidade? Foi assim com a Day. Falamos como se fossemos amigas de longa data. Partilhamos um iogurte, um croissant e os nossos contatos. Disse-lhe que esperava vê-la um dia em Portugal. Levei um banho de realidade sobre a infima possibilidade de tal acontecer, mas em vez de um sermão recebi de volta o melhor sorriso e um "mas espero ver-te a ti na Indonésia e receber-te como uma amiga". Bebi o meu chá de humildade e guardei mais uma memória no coração.
Nova conversa, desta vez sobre educação de línguas em Portugal, Polónia e Estados Unidos. Que bom é aprender e partilhar. Partilhamos um chá e quantas línguas aprendemos na escola. Novo chá de humildade. Obrigada sistema educativo português pelas oportunidades que nos dás gratuitamente e das quais não temos maturidade na altura para absorver. Sabem que gostava de voltar à escola e absorver tudo o que em certas alturas me foi ensinado e não aproveitado por mim por falta de maturidade para os temas. Mas muitas coisas ficaram e muitas delas importantes - falar diversas línguas para além da minha língua nativa - o português - foi uma delas.
Tempo de embarcar. Quando voltar a por os pés na terra, estarei no Paquistão. Eu e a mochila cheia de ansiedade e sede por mais uma aventura.
Dia 3 - Parte I - 16 de Setembro: Lahore - Elevadores no Paquistão
Aterrei. Eu e mais 1500 pessoas (contei uma a uma como é óbvio para obter este número exacto). Lahore, 1h30 da manhã, temperatura no aeroporto 22ºC, humidade controlada. Uma barata que partilha a casa de banho comigo (era pequena, sobrevivi - ela também - e não fiz xixi nas pernas).
Momento para desaprender o que sabemos e nos adaptarmos - Olá Mundo. A Europa ficou lá atrás. 1500 (as tais que eu contei uma a uma) pessoas a tentarem chegar aos balcões dos carimbos, chegar ao Paquistão oficial. Encosta e deixa-te levar pela multidão - Vais lá chegar até porque ninguém fica ali em terra de ninguém - ou entras ou voltas para trás. Lá fomos andando para o único balcão que atendia estrangeiros. 2 horas passam e todos os paquistaneses encontraram o seu caminho. Abrem outro balcão para estrangeiros mas só para mulheres. Impressão digital, intenções explanadas e um carimbo no passaporte - Welcome to Pakistan!
Bagagem é o próximo passo - encontrar a mochila no tapete mágico. Era o 3. Este não voa, mas tem pessoas a circular em cima, caixas de cartão, caixas pelo chão, malas de todas as cores e um génio da lampada a colocar os pertences no tapete. Alguma espera, um pico de adrenalina e eis que a dita aparece. Vejo a etiqueta - confirmo é a minha. Já tenho comigo os 20 pares de cuecas para sobreviver aos próximos 18 dias com 2 extra porque os problemas intestinais são imprevisiveis.
Porta do aeroporto, 4 da manhã, temperatura exterior 30ºC, humidade igual a um banho turco. Deixo de ver porque os óculos embaciam. Centenas de olhos (ou serão milhares? Aqui não tive tempo de contar), procuram quem chega. Outras centenas procuram quem espera. Eu procuro os olhos do Bilal que me ia buscar. Procuro. Volta a procurar. Os óculos voltam a embaciar. Começa a cair aquela pinga de suor do bigode. A polícia manda seguir e porque raio está uma rapariga miope de mochila às costas e franzir os olhos para ler as dezenas de cartazes com nomes e simbolos na fileira das chegadas?
Saiu da trincheira atrás da grade e vou para o mundo. Boa Ana, agora vais ter que encontrar o Bilal de costas. Tendo em conta que de frente foi uma missão falhada, de costas então vamos só subir de nível neste jogo das escondidas. Encosto-me por baixo do cartaz verde ao lado da porta, tento ligar - rede...zero. O meu telemóvel ainda está em Portugal. Ok...wifi rede aberta - cá vamos nós. Informáticos tenham calma. Eu sei que não se faz, mas 30ºC, humidade 100%, 26 horas de viagem, entramos em modo sobrevivência tecnológica. A net liga, o What's App apita - "Ana onde estás?" - Ligo de volta antes de perder o tracinho mágico que nos liga ao mundo. O Bilal encontra-me. Recebo o meu primeiro sorriso, o primeiro abraço e o primeiro "Bem-Vinda ao Paquistão".
Seguimos para o hotel, sou recebida com aquilo que não percebi no momento mas que foi um constante em toda a viagem - o acolhimento paquistanês. Chamam-me o elevador, o meu quarto fica no 6º andar. Lembro-me dos cortes de energia mas o que fazer mais vale ir e acreditar. Chego ao 6º andar sozinha no elevador e sem percalços. No outro elevador seguia a comitiva de boas vindas. Cinco pessoas - uma com a mochila, outra com a mala, outra com a chave, o chefe à frente e o Bilal. Entregam-me segura. Finalmente vou poder dormir esticada numa cama. Cheguei ao Paquistão.
Dia 3 - Parte II - 16 de Setembro: Lahore - Tuk-Tuks sem Portas
O despertador toca para não perder o pequeno-almoço. Parece que fui atropelada. Sei que horas são conscientemente, mas o meu corpo não sabe (ou não quer saber). Vamos embora que estamos com fome. Desço pelas escadas - para baixo não custa tanto e não vamos abusar da sorte na roleta da corrente eletrica do Paquistão. Chego ao buffet pronta para atacar uma torradinha e umas frutas, quiçá uns ovos mexidos. Encontro...caril. Bem, temos fome, temos probióticos e temos outros medicamentos para caso a coisa complique à séria. É o primeiro dia oficial e vamos ter que comer, por isso mais vale começar já. Encho-me de coragem e ataco um prato cheio de arroz e caril (para ir vamos com tudo - perdido por 100, perdido por 1000). Desligam-se as luzes. Primeiro corte energético. A vida continua como se nada se passasse. Já eu fiz aquela cara de espanto com os dentes amarelos do caril como se nunca tivesse passado por um corte energético. Vá, continua a comer Ana. Acabei o caril e voltei a subir pelas escadas. Fui dormir o resto que faltava mas agora de barriga cheia e uma com a casa de banho por perto caso a coisa passasse na fronteira intestinal de forma súbdita e sem carimbo no passaporte. Tudo controlado.
Acordei não sei que horas eram mas já me sentia menos atropelada. Enquanto observo os falcões da janela - pombos é aquela coisa europeia...aqui há falcões na cidade. Recebo mensagem, é o Chico, o guia português. Já tinha chegado, já tinha dormido e estava pronto para ir ao baazar. "Queres ir?" "Dá-me 10 minutos". Vamos ver Lahore. Saímos do hotel (e da maravilhosa invenção do ar condicionado) e aqui estão em todo o seu esplendor os 35ºC de Lahore com humidade de banho turco. É lidar. Antes isto que frio. Dedo levantado, Tuk-Tuk apanhado - direção Baazar de Lahore. As cores, os cheiros, as pessoas, o caos, os fios elétricos, as lojas, os sorrisos, as motas (muitas motas, todas iguais), o reboliço de uma cidade viva. "Isto é que é vida" grita o Chico. Cai a porta do Tuk-Tuk. Sorrio e concordo por dentro "Isto é que é vida".
Paramos e ele diz-me para subirmos ao terraço de um prédio. Claro...mais um elevador. Fique aqui escrito que não tenho medo de elevadores. Mas elevadores com constantes cortes de energia despertam o meu instinto de fuga. Bem, cá vamos. Pelo menos desta vez se correr mal não estou sozinha. Não correu mal e saímos num piso muito alto (por esta altura já deixei de contar), subimos umas escadas de madeira vivida e eis que a mesquita de Lahore surge com as cores do pôr-do-sol. Silêncio. Que sorte que é estar viva e estar ali.
Voltamos e comemos bananas, maçãs e pão. Compramos ali mesmo ao lado do hotel numa banca de rua. O pão é-nos oferecido. Acabadinho de cozer. A bebida oferecem-nos no hotel. Falamos, rimos e trocamos estórias como amigos portugueses que só se cruzam no estrangeiro. Hora de ir recuperar mais um bocado, amanhã começa a viagem com rota da 100rota.
Dia 4 - 17 de Setembro: Lahore - Mesquitas e Baazares
Acordo com a chegada da minha companheira de quarto, a Helena. Também ela atravessou a fronteira de madrugada e chegou agora para o descanso merecido. O meu cérebro decide que já chega de sono desde o dia da chegada já devo ter dormido mais do que em vários dias em casa. Fico acordada horas. Toca o despertador. Caril outra vez.
Começam a chegar os restantes intrépidos desta aventura. A Bárbara, a Joana e o Rui, que se juntam a mim e à Helena. Encontramos o Bilal, o nosso guia de Lahore e o Chico na recepção. Hora de trocar Euros por Rupias Paquistanesas. Hora também de seguir viagem na primeira carrinha mágica.
Visitamos Lahore. Começamos manhã cedo na Mesquita Badshahi da Era Mughal acabada de construir em 1673. Manhã cedo para que o chão não queime os pés. Descalços percorremos o complexo que na noite anterior já me tinha feito admirar a sua beleza. Que sítio de lembrar os contos das 1001 noites. A pedra vermelha, o mármore. Tudo encaixado ao pormenor.
Já a roupa estava colada a nós, seguimos a nossa viagem na história de Lahore e subimos as escadas dos elefantes (sim eram mesmo para elefantes, não me estou a referir aos nossos corpos ensopados a pesar uns bons kilos a mais em suor) e visitamos palácios de vidro e túmulos. Para refrescar...chá ou melhor chai. Com leite como se faz no Paquistão. Uma paragem à sombra das árvores do Parque do Forte de Lahore. Nós, passáros e árvores que viveram eras que ultrapassam o tempo de vida humano em muito.
Com tanta história estava já na hora de almoçarmos, e seguimos para outro ...elevador. Tudo voltou a correr bem e saímos para um restaurante noutro terraço com vista para a mesquita. Juntaram-se várias pessoas à nossa mesa, porque o melhor da comida é quando a podemos partilhar. O que gosto nas viagens, é não escolher. Veio para a mesa o que os nossos guias decidiram mostrar da gastronomia do Paquistão.
Barrigas cheias, tempo para enfrentar o calor da tarde e percorrer o baazar. Não se conhece uma cidade sem se conhecer o seu baazar. Se durante o final do dia haviam muitas motas, durante o inicio da tarde as mesmas multiplicaram-se. Dos muitos olhares, sorrisos e acenos, eis que um se cruza numa mota e eis que aquele segundo leva a uma batida noutra mota. Palavras trocadas, eu envergonhada, todos seguimos em frente e o baazar continuou o seu ritmo desenfreado porque a vida segue mesmo quando uns percalços acontecem.
Dia 5 - 18 de Setembro: Lahore - Jardins, Fronteiras e Sufis
Novo dia, desta vez deixamos a cidade murada de Lahore e seguimos para conhecer o jardim Shalimar também do tempo Mughal e acabados de construir em 1642 sob o mote de paraíso. Um óasis no meio do caos da cidade. Chove, mas a chuva cai e a vida continua porque com o calor que se faz sentir a água é bem-vinda. Imaginamos princesas, imaginamos festivais de velas e água a correr nas centenas de fontes do jardim. Ousamos visitar a parte reservada à nobreza. Que privilégio que muitos não tiveram nos séculos passados desde a sua construção. Respiramos fundo para apreciar o cheiro das flores de jasmim e seguimos.
A água leva-nos 16 km até à Fronteira com a India. Vários checkpoints, várias verificações de identidades e finalmente estacionamos. Vemos a bandeira do Paquistão a esvoaçar, e a da India um pouco mais a frente. Ouve-se música, vê-se um estádio mas não podemos avançar até estarmos equipados. Bandeiras do Paquistão, pinturas na cara, chapéus na cabeça, fitas nos braços - era tempo da grande batalha. Entramos no estádio. Metade Paquistão, metade India. Começa a coreografia militar e a coreografia do público. O coreografo ensaia-nos a cada batuque do bombo. Começamos envergonhados - "Pakistan Zindabad". Puxam por nós, mais alto - "PAKISTAN ZINDABAD" - longa vida ao Paquistão gritamos sobre o olhar atento da pintura de Jinnah, fundador do Paquistão. Do lado da India, com os seus respectivos coreógrafos, outros gritos de poder se ouvem sobre o olhar atento da pintura de Gandhi. Uma festa, mas séria. Não vale a pena resistir. Abrem-se os pulmões, preparam-se as bandeiras, mãos ao alto - Longa Vida ao Paquistão! Que comece o desfile. Marchas, armas, botas, batuques, palmas. Abre-se a bandeira. Faz-se continência. Içam-se as bandeiras, arrumam-se os tambores. Segue a vida das pessoas, metade para o lado da India, metade para o lado do Paquistão. Uma fronteira humana, que separa vidas. Mas as vidas continuam de ambos os lados. Longa vida ao Paquistão e Longa vida à India. Que ambos sigam de forma pacifica assim como nós seguimos em direção ao por do sol de Lahore.
Barriga cheia de arroz e lentilhas e seguimos para uma cerimónia Sufi de música e dança espiritual. Tentamos encontrar-nos no meio do ritmo. As batidas intensificavam-se, homens rodopiavam ao ritmo da música. Calor. Cheiro a erva. Suor. Pés descalços e pulseiras que tilintam. Fecho os olhos, não sei se tenho capacidade para absorver tudo. Saímos. Não sei o que aconteceu. Mas ali estavam centenas de pessoas e ali estava algo a acontecer. Assisti como espectadora externa. Não sei o que senti. Fui dormir com as batidas a ecoar nos ouvidos.
Dia 6 - 19 de Setembro: Lahore - Islamabad - O Paquistanês de Santarém e os Flashes
Dia de deixarmos Lahore para trás. Dia de apanhar o comboio para Islamabad. Chegando à estação somos guiados até ao comboio, entramos e encontramos os nossos lugares. O comboio arranca na hora marcada com as portas abertas para quem quiser ver a vida a passar. Vemos vacas a banharem-se no rio. Servem-nos frango com batatas fritas às 8 da manhã. Queria dormir mas ainda tinha as batidas do dia anterior na cabeça. Viver o Paquistão é viver com intensidade cada momento. Do fundo da carruagem ouve-se um "Fod**** Car****" em bom português. Viramos-nos todos - qual seria a probabilidade de existir mais um português naquele comboio? Não era de facto português, mas era um paquistanês que vive em Santarém e que bom português já falado por ele - ou não serão as asneiras a primeira coisa que nós próprios ensinamos a qualquer estrangeiro? Como em todas as pessoas que me cruzei no Paquistão, encontramos outro sorriso amigo! Ofereceu-nos chai e trocamos estórias de Portugal no meio dos carris a caminho do centro do Paquistão. Travões a fundo. Chegamos a Rawalpindi. Agarramos nas malas e temos um outro sorriso e outro abraço a nossa espera - o Usman. Até agora o Bilal tinha acompanhado o nosso grupo e agora juntava-se a nós o Usman. "Welcome to Pakistan" como seria de esperar. Malas carregadas e seguimos para Islamabad.
Se até agora as fotografias e os acenos tinham sido muitos, nada me tinha preparado para o por-do-sol de Islamabad. Subimos ao monumento de homenagem ao Paquistão e eis que após muitos olhares e acenos, um audaz rapaz me pede para tirar uma fotografia comigo. Claro respondo - "No problem". O "problem" veio depois, porque a bravura de um transformou-se na coragem de muitos outros. Ri-me. Senti-me o Cristiano Ronaldo. Mas ao fim de algumas dezenas largas de sorrisos, acenos, máquinas e telemóveis, o desconforto tomou conta de mim e tive que partir uns corações dizendo já chega. Sentei-me perto do Bilal e fingi que não via as tentativas de mais fotografias. O Bilal ria-se, o Chico ria-se. Eu suava do bigode de desconforto. Fiquei a ver o por-do-sol e a lidar com a falta de jeito para estas coisas. Se tivesse um buraco tinha-me escondido lá a ver o por-do-sol.
Dia 7 - 20 de Setembro: Islamabad - Naran - Finalmente as Montanhas
Faz uma semana que estou no Paquistão. A intensidade que se vive parece que estou aqui à uma vida. O desconforto já foi arrumado de lado. Já aprendi a entranhar os jeitos e trejeitos paquistaneses. Conhecemos o nosso terceira guia - o Taimoor que se junta assim ao Bilal e ao Usman. O motorista ata as nossas mochilas no topo da carrinha, cada um de nós se acomoda num lugar. Seguimos para uma longa viagem com ânsia das montanhas. Seguimos autoestrada fora e que grande estrada. Boa qualidade, sinalização, polícia e multa! Faltava qualquer coisa ao nosso motorista. Argumentação para trás e para a frente, multa paga, segue a viagem. Não sei do que raio falam tanto sobre as "incriveis estradas do Paquistão", esta parece-me ótima! A inocência é algo tão bonito.
Acaba a autoestrada e lá chegam as primeiras estradas de montanha - ainda nada de grave. Solavanco aqui e ali e lá seguimos horas e horas. Já a barriga dá horas. Paramos numa banca de chapa na beira de um rio. Uns toldos improvisados e umas camas de rede e esperamos pelo almoço - a paciência é uma virtude. Tudo o que vale a pena, demora. Não há escolha, nem outro fogão nem outro sitio nem outro menu. Por isso este é de fato o melhor sitio, o melhor fogão e o melhor menu. Peixe frito com arroz e lentilhas. Estava delicioso e não correu mal. Entenda-se por correr mal precisarmos de parar repentinamente para que a refeição continue o seu caminho. Aqui começou a saga do arroz e lentilhas. Até então sempre presentes nas refeições mas sempre discretos. A partir de agora serão companhia diária de manhã até à noite.
Rabos doridos, costas tortas e no meu caso o sono em dia depois de 12 horas de viagem. Estacionamos em Naran. O frio faz-se sentir. Para trás deixamos o calor das cidades, agora chega-nos o frio das montanhas. Compramos xailes e pakols (chapéus de lã tipicos do Norte do Paquistão e do Afeganistão). Estamos prontos para dormir enrolados nas mantas quentes. As vistas da montanhas aquecem-nos a alma.
Dia 8 - Dia 21 de Setembro: Naran - Hunza - Agora as Montanhas a sério
Acordar e entrar na carrinha. Voltar a empacotar malas, voltar a atar mochilas ao topo da carrinha...viajamos sempre com tanta coisa material. Às vezes deixamos em casa o mais importante...a chave para a mente e coração aberto.
As montanhas, hoje sim as verdadeiras montanhas. Até aqui tinham apenas espreitado uns montes que para os portugueses habituados ao pico da serra da estrela nos parecem enormes, mas que são apenas a base dos verdadeiros gigantes que iriamos ver.
Paramos num lago, e chegamos ao primeiro espelho de água. Estou a ver de cabeça para baixo? Se calhar é da altitude. Lago Lulusar. Não há foto que faça jus. Está frio, mas nada que se compare ao que devem ser as paisagens e a temperatura durante o inverno. Voltamos à carrinha, a caminho dos 4000 m.
Curva e contra-curva, chegamos a Babusar Pass a 4173 m de altitude. Há amendoins torrados. Arriscamos. Arriscamos também espreitar o vale Kaghan. Vamos ver se os amendoins não fazem jus ao nome do vale. Olhamos para o lado contrário, e eis que vemos os himalaias e os primeiros gigantes. Tivemos sorte, um dia limpo com muita visibilidade. Parar um momento e apreciar, porque não são todos que ali chegam e mesmo os que chegam não são todos que conseguem ver.
Tempo de descer, mais horas de estrada...o que para mim significa mais horas de sono. Acordo na nossa primeira paragem forçada e vejo pela primeira vez a "estrada". Saímos no alcatrão e agora temos terra batida numa fenda roubada à montanha. Trabalhadores, máquinas e explosivos tomam conta do gigante de pedra, numa luta entre Homem e pedra. Temo dizer que a pedra tem tendência a ganhar mas o Homem tem tendência a persistir. E assim, ficamos paramos a aguardar que mais um pedaço de "estrada" seja desimpedido e o minúsculo Homem nas suas máquinas com rodas possa seguir viagem nas fendas das costas dos gigantes de pedra.
Cai a noite, e com muita bravura, coragem, um bocadinho de loucura e muita experiência, o nosso motorista (e outros tantos em camiões, jipes, carrinhas e motas), leva-nos até ao nosso destino de hoje, Hunza. A casa é acolhedora mas nada se vê. Dizem-me para na próxima manhã subir ao telhado. Guardo a nota, sem saber o que me espera. Hoje, ainda me espera outra surpresa. A taça asiática de cricket. Vou ver o jogo com os nossos guias - um quarto com janelas gigantes e escuro como breu lá fora - para onde raio apontam todas estas janelas? Uma televisão, 3 paquistaneses e 2 portugueses. Começa o jogo. Vou acompanhando as jogadas e os entendidos do jogo, com toda a paciência, vão respondendo às minhas dúvidas. Percebo que ter jogado baseball me faz perceber muitas das regras do cricket! Começo a ganhar gosto à coisa e já grito "CHAR!" e "CHI!" cada vez que o Paquistão marca. Vêm chamar-nos, o jantar está pronto. Abandono o entusiasmo do cricket e troco com outro entusiasmo por uma refeição quente numa noite fria das montanhas.
Jantamos e tempo de ir dormir. Percorro a varanda de metal, na casa de madeira. Passo 6 cadeiras numas mesas voltadas para o vale. A única coisa que se vê são as luzes espalhadas das casas, mas mais nada. O quarto volta a ter janelas gigantes. Todas voltadas para os pirilampos das casas. Deito-me mas sempre com a ideia de...amanhã temos mesmo que subir ao telhado.
Dia 9: Hunza - Gigantes em Festa
Não foi preciso despertador. Às 5 da manhã estava acordada. Esfreguei os olhos, espreguicei o esqueleto e foquei. Quer dizer tentei focar porque ainda não tinha os óculos, mas mesmo sem óculos não quis acreditar. A janela para o vale estava em frente à minha cama. Não há palavras para descrever o que o lusco-fusco deixava relevar. Saltei da cama, vesti a roupa quente que tinha, embrulhei um xaile e fugi com a máquina. Corri pela varanda de metal, passei as cadeiras, escalei a escada para o telhado e eis que...o incrivel vale de Hunza se ergue em todo o seu esplendor. Eu, a formiga, rodeada de picos gigantes com mais de 7000 m com neve em toda a volta. Parece um filme. Os olhos não consegue absorver tudo e por isso choram. Sento-me na minha insignificância e ali fico a aguardar os primeiros raios de sol atrás dos picos de neve.
Recupero e volto à consciência, tempo para o pequeno-almoço. A mesa onde ontem o jantar foi servido tem agora outra dimensão - todas as janelas mostram o vale e metade das montanhas à volta. Sim, metade. Porque para vermos os picos temos que encostar a cabeça ao vidro e olhar bem para cima. É indescritivel.
Tempo para uma nova aventura, entramos numa nova carrinha. Direção a um lago. Sabem o melhor desta viagem ao Paquistão? Estava muito pouco preparada de antemão para o que ia ver, também sendo um destino muito pouco turistico não há grandes fotos a não ser que se procure. Então a cada curva e a cada paragem, os meus olhos esforçaram-se por absorver tudo o que me aparecia à frente, e ao lado, e atrás. Voltando ao lago, o lago Attabad surgiu de um desastre. Após um deslizamento de terras que resultou em algumas mortes e feridos, surgiu o lago Attabad. Sinto que a viagem ao Paquistão me está a fazer temer ter pouco vocabulário para as descrições que merece. O azul do lago, não é um azul normal - mas o que é um azul normal? Esforça-te Ana. O Attabad, tem um azul celeste de glaciar derretido. Não é transparente e parece pintado. Alguém chegou ali e pintou com azul celeste o vale entre as montanhas. A água não mexe. Se calhar nem é verdade, mas vamos descer para ver.
Na margem do lago, entro num barco. E sim é um barco e sim flutua. Então é verdade. O azul celeste é mesmo água. As montanhas engolem-nos. O barco cheio de flores pintadas e a enfeitar contrasta com o azul do lago. O condutor chama-me para conduzir o barco. Não estou a alucinar. Conduzi o barco na pintura azul celeste do Attabad. Voltamos à margem e eu ainda estou a processar as montanhas do nascer do Sol, quanto mais o Attabad. Paquistão, vamos com calma. Está bom por hoje. Não está. O Paquistão é assim, intenso. Não pede autorização. Ou se vai com o fluxo, ou é melhor não ir.
Seguimos em direção a um glaciar e ao Passu Cones. Achavas que já tinhas visto montanhas bonitas? Toma lá mais umas quantas. O trânsito é tão intenso que tiramos fotografias deitados na estrada. Que bom. Só se houve a montanha e os nossos risos. Sabe bem partilhar quando estamos bem. Não estaremos novamente ali, com aquele grupo naquele momento.
Quando achei que estava bom por hoje, seguimos para uma zona com um slide. Sem pensar, nem ponderar assim que perguntam quem quer ir grito EU! Claro Ana, que bela ideia andar de slide no Paquistão por cima das águas gélidas de um glaciar. Atentem que todo este rol de pensamentos só passou pela cabeça em pleno voo. Arnês apertado, corda a deslizar, a água a passar, todos a acenar e a travagem. Perdi o pescoço. Pronto, foi agora. Mas não foi. Estou cá para vos contar a estória que poderia ser o fim da história mas não foi. Adiante - quando se vai para um lado e atravessamos o rio, temos que voltar consequentemente. Duas hipóteses: slide de volta ou atravessar uma ponte com tábuas de madeira com uma separação de várias dezenas de centimetros entre cada tábua. Dói-me o pescoço, vou pela ponte! Que segunda bela ideia, a cada passo a ponte abana mais, a cada passo as tábuas estão mais separadas. Catano, que isto não pareceu tão longe no slide. Vai em frente, se voltas para trás tens o slide à tua espera. É melhor ir em frente. Ela balança mas não cai. Pelo menos não caiu naquele dia. E lá cheguei ao lado de onde tinha partido. Com o pescoço dorido, as pernas bamboleantes, a respiração acelerada mas o coração cheio. Foram vários os "Why not?" seguidos. Ou se calhar nem foram, porque havia vários motivos para "Why not?" mas Pakistan Zindabad!
Fim do dia voltamos a casa. Dizem-me para ir ter novamente ao quarto do cricket. Pensei que mais um jogo estava prestes a começar. Não podia estar mais enganada. Toalha estendida no chão e almofadas à espera. Sento-me. Começam a chegar várias pessoas: o dono do alojamento, os nossos guias, o japonês, o romeno, dois iranianos, o paquistanês do sul e nós cinco portugueses. Que bela mesa. Vem a comida. Tudo comida tipica da zona de Hunza e caseira. Que bom. Chega também a água de Hunza. Que bela surpresa para acompanhar. Ao jeito português, existe lá sitio mais bonito de partilha que uma bela mesa (no chão neste caso). Acaba o repasto. Levanta-se a mesa e eis que chega a banda. Três senhores, um bombo, um tambor e uma flauta. Todos nos calamos e começa a música. De dois em dois como embalados pelo som, levantam-se os participantes e dançam. Uma dança quase tribal e de desafio. Calma mas de luta. E que sorte tenho eu de viver isto. Para à música. Sentam-se de novo e começa a discussão. Fala-se de tudo. Alexandre o Grande vem ao assunto. Após várias discussões, somos todos primos. Tudo por culpa do Alexandre, que grande que ele foi. Celebra-se com mais uma música. Todo o ritual se repete, até que de dois a dois a dançar passamos a todos. Todos sem excepção. Cada um dança como sabe e como sente. Isto é para sentir e não para ser avaliado. Saltos, circulos, mãos no ar, risos, acaba a música. Hora de discutir novamente. Silêncio.
Foram horas que passaram a correr e estava na hora de dar descanso aos músicos. Cada um volta ao seu quarto. Acho que ainda não acordei e são agora 5 da manhã. Se calhar nada disto aconteceu e estou só a sofrer de mal de altitude.
Dia 10: Hunza - Glaciares Desfocados
Acordo. Pois claramente ontem aconteceu e eu acordei agarrada à sanita. Que bom dia que me espera hoje. Sinto que fui atropelada por quatro camiões. Visito uma das vilas preservadas de Hunza que ainda hoje é habitada. Sabiam que antes do Islão chegar a Hunza, havia uma forte presença Budista. Existem ainda muitos simbolos e locais preservados. Vi tudo, mas mal. Tirei fotografias. Vejo mais tarde com atenção nas fotos porque estou só a segurar-me para não virar o barco e não estou a falar do Attabad. Estou com os pés bem assentes no chão.
Seguimos para o glaciar e eu já não vejo nada. Tive que subir 10 degraus que me pareceram o Evereste. Estamos a quantos metros de altitude? Demasiados com certeza. Fico a apreciar a paisagem, sentada e quieta. O tempo cura. Volto a respirar fundo, já vejo o glaciar focado - os óculos ajudam. Hora de voltar. Mas antes ainda paramos para ver um por-do-sol incrivel. Mesmo incrivel. Fico feliz por voltar. Janto e durmo.
Dia 11: Hunza - Naltar - A Vaca
Acabou-se a carrinha, agora são jipes. Ui, agora é vai ser. Achava eu que já tinha passado pelas fendas na montanha. Sabia nada. Salta daqui, salta dali, deixa passar o camião, ui será que isto é a "estrada"...é o que tiver que ser porque não há outro caminho para além da parede de pedra ou do precipício.
A paragem seguinte foi já em Naltar. Um vale no meio de outras tantas montanhas. Sente-se o frio pela luz do Sol tapada pelas paredes de pedra. Várias casas espalhadas pelo vale ao longo de uma avenida de terra batida com vários buracos e várias crianças a correr e a acenar. Largamos as malas na nossa casa de Naltar após afastarmos a vaca que estava em frente ao portão. Por hoje ficamos por aqui e pelos visto a vaca também porque pertence à casa.
Pedem-nos para nos despaxarmos, o almoço ainda nos vai levar a um dos segredos do Vale de Naltar. Agora sim, os jipes são postos à prova. Atravessamos um rio, atravessamos zonas com lama, saltamos de pedra em pedra. Rimo-nos enquanto traduzo o clássico "Garagem da Vizinha" ao Usman. O jipe pára e paramos nós também de falar. Um lago de azul mais escuro, uma fogueira, dois pastores e várias ovelhas. Mais ninguém. Que paz. Monta-se a mesa e partilha-se o almoço com quem está. Põe-se música. Terminam as barreiras. Não há língua mais universal que a música. Dançamos em volta da fogueira. Uns tiram fotos, outros riem, outros fumam. Há um bocadinho de paz para cada um. Que belo seria o mundo se vivessemos nesta comunhão.
O sol começa a sua despedida e é assim também que nos despedimos deste lago mágico nas montanhas do norte do Paquistão. Seguimos até à casa da vaca. Na chegada tomo banho agachada porque não consigo girar a torneira para o duche de cima - paciência para a falta de jeito. Ora que belo banho de torneira. Tremo de frio até me vestir e seguir para me aquecer na fogueira. O que será que as montanhas nos reservam amanhã? Sinto que já não há mais para surpreender.
Dia 12: Naltar - Vale Phander - Viagens
Que viagem dura. Dormi muito e desespero por um xixi. Depois do desespero ainda houve mais uma hora de caminho. Paramos finalmente para almoçar e para eu poder tirar o desespero de mim. 10 pares de olhos observam enquanto entro. 1 par aponta lateralmente para uma porta. Entro. Rezo. Não sei rezar, faço só xixi. Saio. Os pares de olhos já não querem saber porque estão todos a almoçar. Lá vou para a nossa "mesa" reservada. Há tapetes numa especie de palanque que forram o chão e as paredes de madeira. Há vários bicos de fogão com bilhas de gás em frente. E em frente deles duas janelas para a rua. Fervem tachos. Serve-se chá. A rua palpita de carros, motas, pessoas e galinhas. Chega o arroz e as lentilhas à mesa. Na verdade nem sai da cozinha porque estamos na cozinha. Acaba o arroz e vem o chá. Estamos prontos para seguir viagem.
Viagem dura novamente até ao Vale de Phander. Estamos amassados de tanto salto e desvio na estrada quando falta estrada porque caiu. É assim nas montanhas do Paquistão, a estrada de hoje pode não ser a mesma de amanhã. Aqui a natureza manda. Chegamos à nossa nova casa. Há água quente e eu consigo girar a torneira para o duche. Que benção. O frio faz-se sentir mas hoje à jogo de cricket. Paquistão vs Bangladesh. Último jogo antes da final. Sentamo-nos todos na mesma mesa com a televisão ao fundo. Horas passam, o chá aquece-nos. Paquistão passa à final!
Dia 13: Vale Phander - Banhos Gelados e sem Música
Acordei com frio. Está na hora do pequeno-almoço e já vamos em alguns dias de ovos estrelados ou omelete, pão e chá. Chá principalmente para aquecer. Partimos numa caminhada pelo Vale, e novamente quando vamos sem expectativas, lá vem o Paquistão novamente dar um ar da sua graça. Subimos ligeiramente para a seguir descermos. Cascalho no chão. A caminhada faz o frio desaparecer. À direita vê-se o lago com um mais um espelho de água. A paisagem já cheira a outuno. As árvores já se mascararam de amarelo, castanho e algum verde que ainda persiste.
Avançamos por um corredor de árvores alinhadas à beira do lago, uma alameda que para numa casa. Um homem no seu trator cumprimenta-nos e claro que se pára para dois dedos de conversa. Algumas ovelhas, vacas e galinhas correm livres na erva da beira do lago. Uma mão acena perto da casa e chama-nos. Não a todos. Só as mulheres. Vamos e somos convidadas a ver o jardim cheio de flores que nos troca o outono pela primavera num piscar de olhos. Tiramos os sapatos e entramos na casa. Quem nos convida é a mãe, e duas filhas aguardam no interior. Sentamo-nos na cozinha. Que ambiente familiar, não fosse na cozinha que o coração da casa pulsa. Inglês praticamente nulo, e o português e o urdu também não são propriamente parecidos. Mas com calma, sorrisos e gestos tudo se compreende. A mãe e as filhas mostram-me os filhos. Também dois. Militares e a trabalhar na cidade. Perguntam-me a idade e obviamente se sou casada. Mais dois sorrisos e ficava casada ali à beira do lago. Rimo-nos e bebemos chá. Que partilha bonita. Saimos após três abraços sentidos mas não passamos do jardim sem sermos presenteadas com flores no cabelo e maçãs para o caminho. O mundo pode ser tão bonito.
Continuamos a caminhada do lago até que chegamos a uma ponte. Ficamos por ali e o corajoso Bilal decide dar um mergulho. A água fria das montanhas de um azul glaciar não mente na cor e na temperatura. A ponte de madeira, já meio torta pela vida e quem sabe pelas tempestades ali está e pensamos já não ser usada à muito tempo. Mas eis que pessoas passam, burros passam, vacas passam. A vida continua ali, mesmo na ponte ligeiramente torta. Uma vaca decide que pela ponte não vai! Atira-se à água e nada até à margem oposta. Luta contra a corrente mas lá chega. Na mesma margem que nós estão mulheres ao longe a lavar roupa no rio. Roupas muito coloridas que são depois estendidas ao sol com vista para o braço do lago. Ou será um rio aqui? E nós ali sentados, apenas a apreciar a vida a acontecer.
Crianças vão timidas espreitando-nos por entre as árvores. Um riso daqui, um aceno dali e passado pouco tempo já estamos rodeados. Um dos miúdos decide pescar. Uma linha e um anzol improvisado e aí está ele. Vêm perguntar se queremos chá. Queremos claro. Nem que seja para saber de onde saiu a pessoa e de onde sairá o chá. Não saiu. É aceitar.
Pomos música e dançamos. Eis que a vida do lago é interrompida. Surge um homem de alguma idade a gritar conosco. Paramos a música e os nossos guias lá levam o raspanete devido. Não devem por música, nem dançar assim ao pé das senhoras. Nós. Porque isso leva as senhoras ao mau caminho. Vá-se lá saber se não são as senhoras que levam os restantes para um caminho qualquer seja bom ou mau. Respeitamos o local e o senhor. Não é a nossa casa por isso decidimos que está na hora de almoçar. O almoço em forma de pic-nic aparece num jipe a apitar por nós. Temos peixe frito, arroz e pão. Monta-se o tapete-mesa, grande o suficiente para acomodar toda a gente. Os tachos no meio da mesa e que comece o banquete.
Terminamos e está na altura de voltar. O tacho volta de carro mas nós vamos a pé. Corremos todo o lago em sentido oposto, voltamos a levar mais umas maçãs para o caminho e chegamos à nossa casa. O dia já estava a ser bom, mas como sempre mais uma surpresa estava no caminho - e o jantar seria na casa de uma família do Vale. Na sala, as nossas anfitriãs esperavam por nós e os homens trouxeram o jantar para o tapete-mesa da noite. Mais conversas são feitas em torno da mesa, e que sorte tenho eu por poder fazer parte delas. As crianças adormecem no colo da mãe e está na hora de irmos dormir. Que dia de partilha e de coração cheio.
Dia 14: Vale Phander - Booni - Acabaram-se os Abraços
Senta em cima da mochila, esforça o fecho. Porque raio temos sempre que trazer tanta coisa? Bem, mochila pronta, seguimos viagem. Hoje o destino é Booni, mas hoje também nos esperam mais estradas de montanha. Tenho-vos a dizer que hoje, foi mau mas que não será o pior - porque pode sempre piorar não é verdade?
Mas o pior não tem que ser pior para mau. Se olharmos com olho aventureiro, foram uns belos km de montanha. Subimos. Subimos mais um bocado até que chegamos perto dos 4000 m e ao campo de Polo mais alto do mundo - Shandur Pass. Paramos para esticar as pernas, beber um chá e tirar fotos com os noivos e os convidados de um casamento. Os noivos no mesmo jipe acenam e conversa puxa conversa saem do carro para tirar fotos conosco, não tivessemos nós no Paquistão. O noivo de fato azul e um Pakol branco com uma pena de pavão. A noiva com um fato de calças e camisa comprido também azul escuro e adornado de pedras. Usa um chapeu também tipico do Paquistão. Ambos usam óculos de sol estilo Rayban. Parecemos o tipico casamento português (e não sei se de outros sitios porque ainda não assisti a nenhum fora de Portugal), os noivos fazem pose para a fotografia lado a lado e os convidados (nós) à vez lá nos vamos encaixando do lado do noivo ou da noiva como manda a tradição. Atrás de nós um vale verde a 4000 metros de altitude. Nas nossas mãos o chá a fumegar.
Tempo de seguirmos viagem mas não sem antes irmos a casa de banho. Ainda não contei nenhum episódio de casa de banho mas bem descrito ao pormenor. Esta digamos que foi umas sólidas 3 em 5 estrelas para os parametros que nos fomos habituando. A porta? Não fechava nem sossegava com o vento. Bem, lá vamos nós em pares organizados. A sanita? Uma tipica sanita de chão, mas atenção ao pormenor - não tinha resíduos biológicos visiveis. Os buracos na parede e na janela, deixavam o vento da montanha arejar o local. Com isto, já umas sólidas 3 estrelas se conquistaram por si só. Lavar as mãos? Havia um contentor com água que deveria ser usada com um pequeno pucaro para colocar na sanita. Lá vem a Joana com o seu fiel sabonete e não há mão que não fique lavada - mesmo na água do improvisado autoclismo.
Mais uns saltos dentro do jipe e as janelas abertas mesmo com o frio. Passamos por pradarias (na falta de melhor termo). Planicies verdes com lagos e iaques que se passeiam vagarosamente. Parece que assisto à National Geographic live a partir da janela do carro.
As estradas pioram e agora passamos por umas fendas na montanha, surge um rio e temos que atravessar uma ponte de madeira. A ponte parece tão robusta como a que aguentou as pessoas, os burros e as vacas no dia anterior, mas esta tem que aguentar motos, jipes e pessoas. Um carro de cada vez lá passamos e chegamos à fronteira de uma das regiões mais conservadoras do Paquistão. Olham para os jipes, vêem as identificações e mandam seguir. Chegamos a Booni ainda com luz do dia. Os jipes estacionam dentro do jardim do alojamento e de repente parece que estamos numa cerca. Mal sabia eu. Depois dos quarto distribuídos e das mochilas entregues, inocentemente encosto o braço a um dos nossos guias. "Gritam-me" com os olhos muito abertos e dizem entre dentes aqui não. Tiro o braço em camara lenta, faço o meu riso nervoso e peço desculpa. Dizem-me que não sabem quem está no alojamento conosco e que as pessoas podem não gostar.
Hora do jantar e somos acolhidos pelo chefe da polícia local que decide jantar conosco enquanto metade da esquadra aguarda do lado de fora no jardim. Não sei do que falam porque mulheres e homens sentam-se em lados opostos da mesa. Acaba-se o jantar, e por mim está bom como recepção a Booni. Dormimos. Nós e o guarda armado que ficou de vigia no jardim. Bem-vindos à província de Khyber Pakhtunkhwa.
Dia 15: Booni - Chitral - A grande Final
A mala nem deu para desfazer e a vontade de partir era muita. Por isso, a saída é rápida. Na saída da cidade vemos a cara de alguns polícias do dia anterior. Tivemos a jantar com o chefe.
Seguimos viagem, novamente atribulada mas sem estradas cortadas até Chitral. Chitral é capital de distrito e de um distrito que ainda nos ia surpreender. Os jipes atravessam becos que parecem encolher a cada curva. Até que chegamos à Guest House que tem uma vista maravilhosa e aponta para o vale e para o campo de Polo.
Saímos para ir conhecer o Palácio dos Reis de Chitral. Chitral foi uma região independente do Paquistão e teve uma família real até muito recentemente. Subimos umas escadas até uma varanda com várias colunas cor de laranja. Vários animais empalhados são exibidos na parede assim em modo sala da caça do palácio de Mafra mas versão animais de montanha do Paquistão. Destrancam a porta e eis que surge a sala de jantar do Palácio. Aquilo que a varanda mostra, não demonstra em nada o que existe dentro destas paredes. A mesa parece que acabou de ser usada, os cristais brilham, muitos quadros e fotos recentes dos reis de Chitral com o fundador do Paquistão Jinnah. As salas parecem ainda habitadas de tão recente que foi a história dos reis de Chitral.
No exterior do palácio, uma mesquita de Chitral. Tapamos a cabeça, descalçamos os sapatos e vemos um rapaz a fazer patinagem dentro da mesquita. Sim, leram bem. Patinagem. Penso que realmente o piso limpo e perfeitamente liso dá o local perfeito para esta arte.
Voltamos para a Guest-House, mas não sem antes nos cruzarmos com o bazaar e com alguns jogadores de polo nos seus cavalos. Infelizmente perdemos o jogo de polo, mas temos que nos preparar para o jogo da noite - a final de cricket da taça asiática entre o Paquistão e o eterno rival, a Índia. Mesa pronta e desta vez era uma mesa-mesa. Pratos servidos e os nossos guias colados à televisão. "Char", "Chi"! Paquistão abre o marcador com uma magnifica pontuação. Segue-se a defesa. Defendem os primeiros ataques da India de forma exemplar e cresce a esperança da vitória. As horas passam e o jogo não tem fim. Já sou a única mulher na sala. Sinto que os devo deixar ter o seu momento e vou dormir. Desejo toda a sorte ao Paquistão e fico à espera da boa nova no próximo nascer do sol.
Dia 16: Chitral - Vale de Kalash - Um brinde à minha irmã Kalash
A India ganha a taça asiática. Diferença de 5 wickets. Foi mesmo quase, quase. Pareceu Portugal no Euro 2004, foi quase, quase. Mas a esperança não morre e haverão sempre outras taças e outros jogos.
Antes de arrancarmos, no museu em Chitral e no baazar. Os museus são lindos e o Paquistão mais uma vez surpreende com a sua história e a preservação da mesma. Mas os baazares, os baazares são onde me perco. Os baazares são vida. São o coração da cidade. Todos mais cedo ou mais tarde vão ao baazar, passam no baazar, ficam pelo baazar. Chitral aqui mostra-me as suas pessoas. Todas as lojas têm homens a vender as suas mercadorias. Aqui, quase não há sorrisos e a minha camara é olhado com suspeita. Há que respeitar. Por isso camara na mala e "tira-se fotos com o coração" - como me ensinou a Leonor que conheci noutra aventura. Paramos para a compra de uma camisola da seleção do Paquistão. Claro que no meio dessas temo até a arriscar que existiam em maior número camisolas do Cristiano Ronaldo. Não ligo a futebol, mas de fato não há canto no mundo que não saiba o quem é o Cristiano Ronaldo e que ele é de Portugal. Nesta troca Portugal-Paquistão e na compra da tshirt mesmo após a derrota com a India na ultima noite em Cricket, eis que surgem os sorrisos! Chitral afinal tem sorrisos. Só são um bocadinho mais duros de arrancar do que nas outras zonas que visitei.
Estava na hora de partir. As maiores surpresas do dia ainda não tinham chegado e muito caminho havia a fazer. Esperamos pelos jipes e comemos uma chamuça. E que boa chamuça! Entramos no carro e fazemos eu e o Taimoor um "jogo do galo"no vidro do carro. Perdi. O Taimoor parecia feliz a celebrar. Valeu a pena perder. Mas voltando à estrada, agora sim, muitas horas de estrada e agora é mesmo estrada a sério. Ana...já não disseste isto vários dias que passaram? Sim, mas agora estamos mesmo no mais desafiante. Agora sim, as fendas-estrada nas montanhas fecham-se pelo lado e por cima e por baixo. Fica o desfiladeiro ou o rio a espreitar do lado que sobra. O jipe cabe tranquilamente, o problema é quando tem que caber o jipe e um camião e uma mota marota com pressa de chegar. Tudo cabe...inclusivé a roda meio de fora agarrada à esperança que a terra não há de ceder naquele momento. Nem tremer, visto que os sismos no Paquistão não são assim matéria incomum.
Mais um rio, mais uma ponte de madeira. Passa um jipe de cada vez. E passamos. Lá ficará a história da ponte que caiu nas montanhas do Paquistão para outra crónica que não esta. Acaba o asfalto e começa a terra batida. Terra muito batida. Santa suspensão do jipe. Chegamos já ao pôr-do-sol a Bumburet. O jipe entra por um pórtico, um jardim de relva e um grande sorriso espera por nós - Welcome to the Kalash village. Sabia lá eu.
Largamos a bagagem - aquela não essencial cheia de coisas materiais - e lá fomos atrás do sorriso ver uma das vilas Kalash. Os Kalash são especiais. E mais especial ainda era a minha oportunidade de ali estar a viver aquele momento com eles. São um povo pagão/politeísta que vive isolado em 3 vilas situadas nas montanhas do distrito de Chitral no Paquistão. São poucos, diz as estatisticas cerca de 10000 e a tendência, devido às dificuldades socio-económicas e naturais da região é que o numero desça. Os Kalash mantem uma língua, cultura e tradições muito diferentes de toda a região de maioria islâmica que os circunda.
Sentamo-nos no largo da vila de Bumburet, vemos crianças a brincar e mulheres na sua vida. Visitamos uma casa tradicional onde vive uma anciã - será a mulher mais velha dos Kalash? Quase que nos empurra casa dentro. Convidados não ficam à porta. Subimos uma escada-escadote de madeira inclinada com os degraus talhados um a um. Baixamos a cabeça e entramos na cozinha. A varanda sem janelas tem vista para o largo da vila. Modesta mas cuidada faz-me pensar o que será passar o inverno ali.
Avançamos para outra casa e desta vez conhecemos a mama Kalash. A mama é a nossa anfitriã do jantar mas já vamos a essa estória. A mama puxa-me, tira-me as medidas e eis que me enfia um vestido Kalash pela cabeça abaixo. Ata-me um cinto em torno da cintura e aperta de tal forma que respirar é só uma opção remota. O mais bonito veio de seguida, um colar de missangas e peça da cabeça. Imaginem um aro de missangas, com um retangulo de missangas que cai tal como uma trança ao longo das costas. Parece uma coroa e pesa com certeza como uma coroa. Gritam "agora és uma Kalash"! Quem grita? A mama, e a sua nora - a minha baba (irmã) Kalash. Depressa a minha baba põe os seus gigantes óculos de sol e assim juntas tiramos fotos de óculos cosmopolitas mas com as roupas com séculos de tradição. Se não é lindo esta partilha, juro que não sei o que mais é.
Somos convidados para o jantar. Entramos numa das salas da mama Kalash. Almofadas a toda a volta e a tipica toalha-mesa no chão. A nós juntam-se várias mulher Kalash. A minha baba senta-se ao meu lado. Os únicos homens presentes são os nossos guias e o Rui também ele viajante deste grupo como eu. O jantar é servido pelos homens, num entra e sai de travessas. Também a bebida é colocada à disposição. Sim, os Kalash produzem vinho e as mulheres bebem-no sem qualquer restrição. A minha baba conta-me dos filhos e do marido (um dos homens que nos estava a servir). Brindamos a muita saúde para todos. Fala-me de como faz ela o design nos desenhos nos vestidos e pede para mostrarem alguns feitos por ela. Mostra-me muitas fotografias dos festivais da primavera dos Kalash onde muito orgulhosa exibe as suas obras de arte de vestir.
Entra a banda - dois homens - só me lembro da flauta. Recolhe-se a mesa e está a pista de dança montada. As Kalash mostram-nos e convidam-nos para dançar. E porque não? Lá vou tentando imitar os passos e seguir o ritmo. Ritmos que já se vão entranhando ao fim de tantos dias de viagem mas que os musculos ainda não tem memória para dançar. Muitos risos, muitas danças e que noite de partilha. A mama dá a ordem e todas as Kalash se recolhem. Os nossos guias tomam agora conta da pista de dança. Foi uma grande noite de partilha.
Dia 17: Vale de Kalash - Tradições
A noite de ontem aconteceu? O ar rarefeito da montanha está novamente a por-me à prova.
Uma caminhada para começar o dia é o melhor, e é assim que vamos conhecer a vila de Bumburet e outra mais abaixo na montanha. O nosso guia tem um passo tão ligeiro e calmo, e nós parece que vamos todos desengonçados atrás dele. Cada pedra para nós é um obstáculo, para ele um apoio. O silêncio impera. Só se ouve a vida quotidiana das montanhas a acontecer e uma ocasional galinha mais estridente. Acabamos a caminhada no Museu Kalash. Não tenho palavras. Foi o museu mais incrivel que vimos. Como é possível no meio da montanhas? O museu no rés-do-chão, tem uma escola de custumes Kalash no primeiro andar. Somos guiados através das tradições deste vale com todo o orgulho que este povo merece.
Se a caminhada foi em passo acelerado sempre a descer, imagine-se que no final foi sempre a subir. Quem quis teve boleia. Quem quis treinar a sua cabra-do-monte interior, foi a pé. É só puxar pelo pulmão. As cabras intrépidas, chegaram já com uma fogueira pronta. Houve jantar, sem luz (a eletricidade falhar muitas vezes nas montanhas), houve fogueira, houve partilha e houve música. Já sinto saudades e ainda aqui estamos.
Dia 18: Vale de Kalash - Peshawar - A Escolta para o WC
Houve lágrimas. Abraços e despedidas feitas era tempo de partir. Foi dificil deixar o vale de Kalash, psicologicamente e fisicamente porque a estrada de chegada é a mesma de partida e toda a terra batida espera ansiosamente por nós. A viagem pareceu mais curta. Não parece sempre? Para lá vamos com a expectativa e o entusiasmo de algo novo. Para quem vimos com a bagagem sentimental cheia e talvez mais calmos e comtemplativos.
Paramos no final do vale. Após toda a travessia da terra, das fendas, das pontes. Parecia à uns dias a versão rebobinada. Tiramos fotos e preparamo-nos para Peshawar. Os jipes já não serão precisos, mas em troca do jipe temos escolta policial. Estamos perto da fronteira com o Afeganistão e é exigido que os visitantes tenham escolta policial. Antes da troca dos jipes pela carrinha, temos ainda que enfrentar túneis de vários km (mesmo muitos kms), vários pontos de controlo policial, onde todos temos que apresentar os passaportes e as nossas intenções e um furo. Acreditar que foi o primeiro e único furo que tivemos em todas estas estradas é mesmo caso para agradecer.
Furo resolvido, paramos numa estação de serviço e despedimo-nos dos motoristas. Foram muitos dias de partilha com eles. Já disse que não gosto de despedidas? Entramos na carrinha, e entra aqui a operação Portugal-Peshawar. Um jipe à nossa frente com pelo menos quatro guardas. Espingardas ao peito, caras tapadas. A operação especial Portugal-Peshawar precisa parar porque tenho que ir a casa de banho. Sim vais, mas vais escoltada. Fico feliz por ser só um xixi. Voltamos para a carrinha e uns km mais à frente paramos para o almoço. Ao longo do caminho o jipe de escolta vai sendo trocado consecutivamente mas sempre sem pararmos. Para um jipe e arranca outro. Os passos de dança desta operação estão extremamente bem estudados.
Chove torrencialmente. Sentamo-nos no chão e mais um arroz com lentilhas. Voltamos a carrinha. Estou cansada de tanto km, estou cansada de despedidas e ainda agora começamos. Sinto a nostalgia do fim da viagem a abater-se sobre mim. Até o céu chora. Chegamos já de noite a Peshawar. O caos da cidade contrasta com o silêncio das montanhas. Porta do hotel - "a partir deste ponto não são permitidas armas". Certo, confirmo, não tenho nenhuma comigo. Antes do sono merecido, é a vez do Francisco ir embora. Mais uma despedida. Vou dormir. Já chega por hoje.
Dia 19: Peshawar - O Cerco de Cores
Acordamos sem eletricidade. Que saudades. Volta e cai e anda neste ciclo. Vou pelas escadas. Parece que voltamos ao dia um da saga eu-não-tenho-medo-de-elevadores-mas-nunca-fiando. A nossa escolta policial espera-nos e lá vamos de carrinha até ao museu e depois até ao baazar. Sempre os baazares. A polícia sai e segue-nos atentamente à frente, atrás, de lado. Não vale sequer dar um passo mais lento para apanhar uma foto ou outra que temos logo um policia colado a nós com aquele julgamento de "junta-te lá ao grupo". Tento abstrair-me porque estou em Peshawar e Peshawar cidade não merece ser julgada só pelo cerco apertado e pelos seus 50 km que a separam do Afeganistão.
O calor começa a apertar, as montanhas já ficaram para trás e voltamos ao bulício de uma grande cidade. Começamos no museu da cidade. Entro e a primeira coisa que se apresenta é o salão de baile. O edifício foi construído em honra da Rainha Vitória e tem uma mistura de arquitetura britânica, mughal, hindu e...budista. Esta última parte é o que mais me surpreende. Este salão, para além das suas salas laterais, está recheado de artefatos budistas. Muitas estátuas, todas elas (ou praticamente todas) nuas. Tendo em conta que estamos numa das provincias mais conservadoras do Paquistão não estava a espera mas fico agradada de saber que a arte budista foi preservada. A relevância do budismo nesta região também foi algo que não estava à espera. Aprendi que a extensa coleção de arte budista vem da civilização Gandhara. Uma civilização indo-ariana que estava presente no nordeste do Paquistão e no Afeganistão, sendo a sua região core o vale de Peshawar e de Swat. Subo ao primeiro andar do museu e eis que sou também surpreendida por muita arte Kalash preservada. Apertam já as saudades e aparece a nostalgia do último dia para dizer um olá. Nostalgia, volta para trás que ainda há muito dia pela frente.
Continuamos de carrinha até ao baazar e fazemos uma paragem no Taj Soda. Dizemos para entrarmos por uma porta praticamente camuflada no meio dos edificios, cabos, anuncios e outra quantas portas. Um corredor estreito leva-nos até a um interior com neons que anunciam "Taj Soda - since 1936". Escolhemos um dos vários sabores disponiveis (ou escolhemos só pela cor porque todos os sabores vêm em garrafas de vidro com o liquido talhado de uma cor também ela néon) e o refresco tira-nos parte do calor. Já o doce do açucar anuncia que será alivio curto e o melhor é ter água disponivel.
Não consigo estar muito tempo sentada. A nostalgia foi dormir a sesta mas começa a ansiedade do regresso. Também não vale a pena ir a rua, porque sou logo seguida por um polícia. Todos terminam os seus refrescos e seguimos. Os sorrisos em Peshawar são mais timidos e dificies de arrancar mas existem. Acredito que também não me riria de ver um grupo de turistas a passar rodeados de policia armada à volta. As lojas que olho, todas tinham homens. As mulheres passam na rua mas quase todas elas envergando uma burka. É desconfortável para mim. Mas tento com muita força não tirar juizos de valor de uma sociedade que eu não conheço e que não cresceu na mesma cultura que eu.
Saímos por uma rua lateral e é um alívio. A policia descontrai assim que saímos do baazar. Vamos visitar uma casa recuperada e aí podemos andar à vontade. Na verdade no interior, eis que outros polícias de outro grupo perguntam se podem tirar uma fotografia comigo. O meu ego já estava a ficar com saudades destes pedidos. Claro que sim respondo. Bem...uma fotografia transformou-se numa sessão fotográfica com os vários telemóveis, com os vários polícias com as armas, sem as armas até que malta...já chega. Temos que avançar. Saímos para a rua e ainda há tempo para visitar um jardim. Do outro lado do jardim mais uma surpresa nos espera, um autocarro de truck-arte paquistanesa. Os guias dizem-nos para entrar, vamos dar uma volta por Peshawar nesta obra de arte com rodas!
Subimos 3 degraus, escolhemos um banco. Todo o tecto está coberto de pinturas. O vidro da frente completamente decorado deixa uma pequena linha de visão para a estrada. O motorista apita e até o apito tem toda uma melodia. Isto não pode ser real, pois não? Abro uma pequena janela lateral, passam uns miúdos da escola. Todos acenam entusiasticamente. O autocarro para num cruzamento e eis que um dos miúdos me oferece uma flor. Agora é que isto não é mesmo real. Agradeço e recolho a flor pela pequena janela. Os Usman e o Taimoor riem-se de mim. Continuamos a viagem até a uma das oficinas de truck-art. Aí vemos verdadeiros artistas. Cada camião ou autocarro, é arranjado pelos mecânicos, pintado à mão por verdadeiros artistas e amado pelo seu dono. Explicam que ter um destes camiões é uma reliquia e como tal os mesmos exibem por vezes até a história da família com retratos pintados ao longo da carroceria. Não tenho palavras suficientes para descrever o que vejo. As cores vivas, os desenhos, a imponência dos camiões. É indescritivel. Vejo um grupo a reunir-se e a olhar novamente para mim, olho para o Taimoor e faço a cara do...já chega. Tiram fotos com o restante grupo. A nostalgia já tomou conta de mim e para lidar com ela, já não consigo lidar com o resto. Voltamos à carrinha e almoçamos no hotel.
Após o tempo de descanso, de fazer malas, dos check-ins e check-outs ainda tivemos tempo para uma corrida final aos tecidos e às lojas. Compram-se os últimos presentes. Juntamo-nos ao jantar e lá vem os abraços. Então mas aqui não temos que ser mais contidos? Esqueçam. Discursos feitos e as saudades já apertam. É hora de seguir para o aeroporto.
Dia 20: Peshawar - Lisboa - A Despedida
Chegamos ao aeroporto já passa da meia-noite. No caminho passamos por vários postos de controlo. Vários. Em todos temos que apresentar os passaportes. Os nossos guias explicam que só nos vão deixar e por isso não têm bilhete de avião. Estou a ver que esta zona a segurança é mesmo apertada. Controlos passados, é tempo do abraço mais difícil. As viagens têm destas coisas, vamos inteiros, deixamos parte de nós e voltamos com partes diferentes e o coração cheio das pessoas que conhecemos. As viagens quebram tantos preconceitos. O Paquistão não me pediu licença e assentou arraiais no meu coração. Que país e que povo incrivel. Quanto aos amigos que deixamos, é dificil não pensar que muitos meses, anos ou até uma eternidade irá passar até nos voltarmos a ver. Fica a esperança. Inshallah.
Se tiveres dúvidas ou quiseres viajar para o Paquistão, estou disponível para te ajudar a saíres da tua lata e explorares o mundo!
Sempre vossa: Uncanned Sardine




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